Inteligência, Consciência e a Fusão Homem-Máquina – discutindo Ray Kurzweil


Através da discussão da inteligência e consciência, da tecnologia e da evolução da espécie humana e das máquinas, o cientista e futurólogo Ray Kurzweil, em seu livro “A Era das Máquinas Espirituais” (posteriormente revisado sob a forma do livro “A Singularidade Está Próxima”), levanta hipóteses sobre o futuro da Humanidade, preconizando a fusão entre homens e máquinas e o consequente aproveitamento das melhores características de ambos.

DNA, Evolução e Tecnologia. Um requisito chave para um processo evolucionário é um registro “escrito” de suas realizações, para que os organismos não tenham que reaprender a cada nova geração. Nos seres vivos, este registro ocorre no DNA, que funciona tal como um computador digital. Mas o que distingue humanos de outras espécies não é o DNA em si, se não um aspecto da evolução que lhes é único: a tecnologia (exemplo trivial de tecnologia: a linguagem). E a habilidade de se reter e divulgar a informação que o DNA oferece surge nos seres humanos também na capacidade de reter informação sobre como utilizar a tecnologia e criar novas ferramentas. A partir desta tecnologia emerge a computação, que é, por sua vez, uma maneira de controlar e facilitar a criação de mais tecnologia.

Inteligência, Contexto e Conhecimento. Para Kurzweil, inteligência é algo muito vago para que se possam designar limiares, porém, mesmo não havendo um conjunto completo de fórmulas para designar inteligência, ele a conceitua como a habilidade de usar recursos limitados (inclusive tempo) para atingir objetivos tais como resolver problemas matemáticos, compor música, criar imagens etc. A inteligência humana, um produto da evolução, é muito mais inteligente que seu criador e uma inteligência como a humana é capaz de criar uma inteligência que eventualmente ultrapasse a sua – e isto num futuro não muito distante. A questão que Kurzweil lança é se algumas destas máquinas serão capazes de chamar a si mesmas de humanas.

Alguns computadores podem exceder a inteligência humana em alguns aspectos (lembram-se do grande enxadrista Gary Kasparov sendo vencido pelo Big Blue da IBM?), mas eles ainda carecem de flexibilidade, da habilidade de reconhecer adequadamente sentimentos e descrever o ambiente em que se encontram, entre outras deficiências. Esta “flexibilidade” é mais patente nas crianças: como adultos, restringimos nosso foco ao pensar nos problemas (como, por exemplo, numa jogada de xadrez), ao passo que, como crianças, lidamos com contexto, com a nossa relação com o mundo de maneira ampla. A máquina Deep Blue seria, assim, uma forma inteligente, ao passo que ela não teria visão de contexto, pois não consegue navegar para além de seu restrito mundo. Uma máquina não consegue entender o que seja a diferença entre um cão e um gato ou entender um desenho animado.

Dado que, sem conhecimento, uma entidade não consegue funcionar, para criar inteligência flexível em nossas máquinas, precisamos automatizar o processo de aquisição de conhecimentos de tal modo que os sistemas possam modelar e entender a linguagem humana. O que não é tarefa fácil, pois a linguagem que usamos para expressar conhecimentos não é menos complexa ou sutil que o próprio conhecimento que ela procura transmitir.

A vantagem do lado dos computadores reside no fato de que eles têm melhor capacidade de lembrar, circuitos mais velozes que os nossos e não gastam a capacidade de seus circuitos para dar suporte aos seus próprios processos, como fazem os humanos. E, uma vez que um computador alcance um nível humano de inteligência, ele sem dúvida o suplantará velozmente, até que chegaremos a um ponto onde termos de indagar se estas máquinas possuem consciência ou se possuem sentimentos como nós (lembram-se do filme “A.I.”, de Steven Spielberg?). Uma vez alcançado este ponto, restará aos humanos aprender cada vez mais e deixar os trabalhos manuais a cargo das máquinas – se elas concordarem com esta concepção…

Teoria das Mudanças Aceleradas. Essencialmente, o que o autor afirma, baseado no que ele denomina Teoria (ou Lei) das Mudanças Aceleradas – ponto fulcral deste seu livro –, é que a espécie humana e a tecnologia computacional evoluem a uma taxa exponencial, mas o expoente é muito maior no caso da tecnologia, o que fará com que ela acabe por suplantar quem a criou.

Assim, a partir da automatização do processo de aquisição de conhecimentos, as máquinas poderão se aventurar, ler e aprender por si mesmas; máquinas produzirão máquinas melhores e, em última instância, “acumularão conhecimento por si mesmas, aventurando-se no mundo físico, extraindo do amplo espectro dos serviços de mídia e informação e compartilhando este conhecimento umas com as outras…”.

Neste passo, de acordo com o futurólogo, antes de 2030 teremos máquinas que proclamarão “Penso, logo existo”. Mas humanos e máquinas se mesclarão de tal forma que será difícil diferenciá-los, cada um tendo as melhores habilidades e vantagens do outro.

Consciência e corpo físico. Consciência é uma função das partículas reais ou apenas de seu modelo e organização? Alguns filósofos sustentam que adquirir inteligência de nível humano seja impossível sem um corpo. Mas, ainda assim, que tipo de corpo? Colocando e outra forma, se fizéssemos uma varredura não-destrutiva do cérebro e o sistema neural de uma pessoa e criássemos nova instância dela numa cópia de seu corpo, a pessoa nova seria a mesma que a anterior? E se o corpo anterior fosse destruído, a pessoa teria sido “morta”? E se apenas as pessoas que tivessem criado a nova instância do corpo tivessem conhecimento desta criação?

Se uma pessoa coloca um membro artificial, dizemos que ainda é a mesma pessoa. Mas, e no caso do cérebro e do sistema neural repostos? Qual parte de nosso cérebro é responsável pela consciência? Ou há mais de uma delas num cérebro, cada qual com sua perspectiva?

Para determinar a existência ou não da consciência, o matemático Alan Turing propôs um teste, que consiste em um juiz entrevistar um computador e um ou mais humanos que não estejam visíveis para ele, mas que responderão através de terminais. No momento em que o juiz não for capaz de distinguir quem é o computador, poderíamos dizer que este terá adquirido um nível humano.

O Futuro. Após as discussões iniciais, o autor passa a navegar através dos decênios do século XXI, mostrando como será o futuro da computação e de suas aplicações em campos como Educação, Comunicação, Negócios e Economia, Política, Sociedade, Artes, Guerra, Saúde e Medicina e Filosofia. Discute também a evolução da inteligência e o que qualifica como o diferencial de uma espécie, o fato de ela criar ou não tecnologia. Ele considera que grupos mais avançados tecnologicamente acabam por dominar e coloca a questão: um planeta pode sustentar mais de uma espécie que crie tecnologia?

Apesar dos possíveis cenários de guerra e destruição, o autor diz que a Terra tem uma chance maior que nunca de sobreviver a isto. A inteligência teria papel nesta superação, pois, apesar de não ser capaz de dobrar as leis da Física ou salvar a humanidade das catástrofes, inteligências a partir de certo nível são capazes de manipular as forças em seu meio para dobrar sua vontade e fazer com que estas leis “evaporem” em sua presença.

Se a Humanidade vai atingir o progresso que o autor preconiza ainda é algo de difícil comprovação. A raça humana é imprevisível, criando problemas com a mesma (ou maior?) facilidade com que cria soluções, mas devemos torcer para que o autor esteja certo em suas previsões – como tem estado até o momento. 

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Sobre Roberto Blatt

Sou formado em Engenharia Eletrônica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP), tenho M.S. in Computer Systems and Information Technology pela Washington International University e MBA em Administração de Empresas pela FGV. Tenho mais de 25 anos de experiência profissional na área Administrativa Financeira, desenvolvidos em empresas nacionais e multinacionais dos segmentos automotivo, eletroeletrônico e serviços, vivenciando inclusive o start-up, dentro dos aspectos administrativos e financeiros e tendo atuado na gestão de equipes das áreas Administrativa, RH e Pessoal, TI, Financeira, Comunicação e Compras. Professor no Pós-Admn da FGV em Liderança & Inovação e Gestão de Pessoas. Para acessar meu blog com comentários e críticas sobre cinema, cliquem aqui ou, para artigos sobre Administração, Tecnologi a eresenhas de livros, em aqui .
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4 respostas para Inteligência, Consciência e a Fusão Homem-Máquina – discutindo Ray Kurzweil

  1. roni disse:

    discordo do termo : “””””Colocando e outra forma, se fizéssemos uma varredura não-destrutiva do cérebro e o sistema neural de uma pessoa e criássemos nova instância dela numa cópia de seu corpo, a pessoa nova seria a mesma que a anterior? E se o corpo anterior fosse destruído, a pessoa teria sido “morta”? E se apenas as pessoas que tivessem criado a nova instância do corpo tivessem conhecimento desta criação?””””

    Cada individuo é um individuo, outro nao pode tomar o lugar do outro. ate mesmo uma copia. entendeu?

    epilogopilogo@bol.com.br

    • Roberto Blatt disse:

      A questão, caro Roni, é precisar o que seja o “indivíduo”. Onde está a individualidade? Na mente? Concordo com você no sentido de que, mesmo se transplantando a mente para um corpo novo, não se teria mesma pessoa. Imagine a mente olhando para o novo corpo e pensando: “Este não sou eu, este não é meu corpo”. Por outro lado, as lembranças e emoções anteriores ainda estariam presentes no novo corpo, pois teriam sido transferidas via transferência da mente… Neste sentido, a pessoa seria a mesma. Confuso…

  2. roni disse:

    sobre isso que voce está abordando eu já imaginava algo assim um tempo atras, mas como seria isso? analisando que cada pessoa é tipo um refletor de si mesmo, assim como transferiria a imagem refletida para outro corpo? somo se cada corpo uma maquina refletora de si mesmo, logo o reflexo seria impossivel ser posto dentro de outro corpo, é como se colocar a imagem do filme noutro refletor. só a imagem. entende? isso é inrelevante ao senso.
    teriamos que transferir também nosso cerebro ou nossa cabeça para outro corpo.

    isso implica notarmos que somos a mesma pessoa o tempo todo.
    Copia de nossa mente, foi o que comentei sobre antes desta mensagem que mandei, que no entanto sera outra, nunca sera a mesma pessoa, tipo um clone. é o que to dizendo.

    isso significa que nunca seremos ao mesmo que somos, ser o outro também. isso é pensarmos grotescamente.; isso é pior que ficção cientifica. é historia de trancoso. considere . não me leva a mal. só to relevando as coisas numa visão etica. mas foi uma visão muito interesante, eu ja tinha pensando nisso também como ja te disse.

    • Roberto Blatt disse:

      Seu pensamento foi muito longe… Realmente é algo muito filosófico; difícil de se concluir o quanto a pessoa ainda seria a mesma… Eu ainda acho que seria essencialmente a mesma, após a transferência do conteúdo do cérebro. Opinião…

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