Impressões sobre a China (RPC)

“A country so big
A history so long
A population so large
A language so hard”
(Professor Li Xiangkun, em sua palestra de apresentação sobre a China, na apresentação do Summer Course 2011 na Universidade de Hubei)

Nossa ida à China deu-se em razão de curso oferecido pela Universidade de Hubei, parceira da UNESP através do Instituto Confúcio (http://www.institutoconfucio.com.br/noticia_view.asp?ID=69).

O curso de 30 dias incluiu aulas de língua chinesa, etiqueta e cultura, geografia, caligrafia, pintura, arte do corte em papel (paper cutting), artes marciais, culinária, introdução à medicina chinesa e muitas outras disciplinas, mescladas com viagens culturais e visitas a lugares históricos da China.

Este texto relata as impressões obtidas nesta fantástica viagem.

CHINA NA PRÁTICA…

VOO DA IDA E AEROPORTO DE PEQUIM. A Air China, com seus assentos, digamos, não muito espaçosos e seus comissários de bordo que pouco falam inglês, formam a primeira ponte entre o Brasil e a China. Pequim foi nossa porta de entrada e seu aeroporto, fruto essencialmente dos esforços para atender às demandas dos últimos Jogos Olímpicos, surpreendeu pela infraestrutura gigantesca e bem conservada.

Há muito rigor quanto ao que é colocado na mala de mão: géis e líquidos estão limitados a 200 ml e devem ser separados em um saco tipo ziploc; isqueiros não são aceitos nem na mala despachada.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES. Um país onde frequentemente (e aí residiu a surpresa) você se sente no Ocidente, ao ver os grandes shopping centers e a moda usada pelos habitantes, que não, não tem nada de trajes cinzas padronizados e sem graça da era maoísta – pelo menos nos centros urbanos.

Banheiros públicos… Bom, eis aí um ponto onde se notam claramente as diferenças para o Ocidente. Como nos fora comunicado, os vasos sanitários nada mais são do que um buraco no chão, sendo que papel higiênico e sabonete são itens difíceis de encontrar (afinal, seria muita gente consumindo, como bem comentaram); daí a recomendação para que se leve os próprios pacotes de papel e álcool em gel. Claro que, em locais com mais frequência de ocidentais, como aeroportos e diversos restaurantes, os banheiros são tradicionais.

Um país que se moderniza rapidamente (e não discuto aqui os aspectos positivos e negativos da modernização), que parece criar moda (foi uma experiência diferente descobrir que óculos de aro de tartaruga são usados sem lentes) e onde McDonald’s, KFC, Pizza Hut, Wal-Mart e grandes shopping centers são parte da paisagem.

Em contrapartida, dólares e cartões de crédito não são instrumentos aceitos no comércio e serviços em todas as cidades. E Facebook e Twitter não são acessíveis. Mas os chineses dão um jeito de se burlar a proibição… Até que o governo feche as portas novamente…

A CHEGADA E A RECEPÇÃO NA UNIVERSIDADE. Capital da província de Hubei, Wuhan é uma espécie de hub, um ponto central, quando consideramos as distâncias a outras cidades como Beijing (Pequim), Guangzhou (Cantão), Shanghai e Xi’An, todas a cerca de 1.000 km dela. Trata-se de uma cidade arborizada, com um dos verões mais quentes da China e extremamente poluída pelas indústrias e poeira dos canteiros de obras, onde é comum construções inteiras serem derrubadas para serem substituídas por novas ou por metrôs em rápida implantação.

Varais nas salas são vistos até nos prédios de padrão mais elevado, maculando uma paisagem que, de outra forma, poderia ter um aspecto moderno. É o sol de verão ajudando na secagem e na desinfecção das roupas, pelo que nos contaram. Aliás, este mesmo sol inclemente faz das sombrinhas acessórios muito utilizados pelo sexo feminino. Vale registrar ainda que a pele extremamente branca é considerada sinal de beleza.

A Universidade de Hubei está numa área arborizada, onde prédios recém-construídos e vistosos convivem com outros antigos e que aparentam pobreza e sujeira. Os alojamentos dos professores são feios, os dos alunos são piores e os dos alunos mais pobres, deprimentes. Nestes, garrafões térmicos servem para o banho, já que não possuem encanamento para tal.

Aspectos visuais à parte, a Universidade esmerou-se em providenciar uma recepção calorosa, desde o aeroporto de Wuhan ao campus, onde se via a faixa de boas vindas e o corpo diretivo e alunos voluntários nos cediam sua atenção a todo o momento. Era agradável ouvir o português com sotaque de Macau, local onde diversos voluntários fazem o curso universitário e onde aprendem o português. E, na falta do português, o que percebíamos eram estudantes em geral muito bem treinados no inglês e que nos ajudavam no nosso mandarim e em todas as atividades – apesar de eles estarem em época de prova… Um sacrifício reconhecido, pois sabemos como os chineses estão imersos em seus estudos.

A atenção dos monitores, estudantes voluntários que nos acolheram e ajudaram, era uma constante, estendendo-se aos banquetes que nos eram oferecidos. Aliás, quanto às refeições, fôramos alertados para eventuais problemas de saúde em função da alimentação, diferente daquela a que estamos acostumados, mas a universidade preocupou-se em controlar os temperos e a comida parece ter sido bem adaptada aos nossos padrões.

O POVO. Geralmente muito atenciosas, as pessoas nas ruas nos olhavam com curiosidade, principalmente em locais onde estrangeiros (wài guó rén) não são tão frequentes, como na cidade de Wuhan (e note-se que a cidade é grande, com cerca de 10 milhões de habitantes).

Éramos efetivamente atração para os habitantes locais e, em nossas excursões, turistas chineses sorridentes solicitavam autorização para ser fotografados conosco. Embora houvesse muito mais turistas em Beijing que em Wuhan, nossa presença naquela ainda despertava curiosidade e abordagens sempre simpáticas.

Algumas situações nos mostram a boa vontade do chinês comum, aquele não relacionado à Universidade de Hubei, para conosco. Por exemplo, no aeroporto de Xi’An, os funcionários da limpeza paravam e nos observavam, interessados na lição que fazíamos para o curso de mandarim; finalmente, nossos monitores da Universidade de Hubei acabaram sendo reforçados por algumas crianças e adolescentes que embarcariam em nosso voo. Fomos brindados com atenção e dedicação por parte destes novos professores, que tinham prazer e se esforçavam para nos explicar a lição.

Exceto pela falta de paciência de eventuais vendedores ou pelo comportamento impaciente do chinês no trânsito – seja de veículos, seja de pedestres – encontramos um povo simpático, atencioso e curioso em relação a nós. O que nem permitia que se percebesse que a democracia não é uma das características do regime. De qualquer modo, muitos jovens nem sabem o que é democracia, apenas anseiam ter uma vida mais confortável, o que têm conseguido cada vez mais, devido ao constante desenvolvimento econômico do país.

NEM SÓ DE ESTUDO VIVE O HOMEM…

E as excursões são benvindas…

WǓHÀN

HUÁNG HÈ LÓU (YELLOW CRANE TOWER) nos oferece uma vista maravilhosa da cidade de Wuhan, além de apresentar típica arquitetura chinesa.

XĪ MÉN KǑU é uma região interessante da cidade, com lojas de artigos locais e presentes, bem como feira de comida nas vielas locais – comida extremamente oleosa, mas ainda nenhuma comida exótica como os tão falados escorpiões, insetos e afins. Não esperem encontrar uma visão agradável, pois o lixão fica exposto… Mas não deixa de ser exótico.

MARKET STREET é o local recomendado pelos moradores de Wuhan para compra e/ou encomenda de qípáo, a túnica chinesa. Mas há várias opções de tecidos e nada melhor que nossos monitores mais experientes para apontar o que havia de maior qualidade.

HÚBĚI PROVINCIAL MUSEUM, no distrito de WǓCHĀNG, serviu como parte prática da palestra que tínhamos tido sobre a Cultura Chu, da Idade do Bronze. Ao fim da visita, assistimos a uma pequena e agradável apresentação de música chinesa com instrumentos tradicionais. A apresentação não agradou somente aos ouvidos, mas também aos olhos que se encantaram com o figurino dos músicos e com os instrumentos, em especial os sinos, que impressionaram pelo seu tamanho e som.

HÀNKǑU, originalmente, uma das cidades cuja fusão gerou Wuhan, foi o distrito onde tivemos oportunidade de experimentar pratos típicos como o huǒ guō ou hot pot (que alguns dizem ser na realidade de origem mongol), um ensopado onde ingredientes crus são imersos em água fervente no tal hot pot, cozidos e depois imersos em molhos específicos. Para quem não deseja as frituras, uma ótima opção.

SĀNXIÁ (TRÊS GARGANTAS)

Quatro dias de cruzeiro pelo rio YANGTZÉ (ou CHÁNG JIĀNG). Novamente, um atendimento ótimo, educadíssimo; e, ao contrário do ocorrido em nosso voo, aqui todos falavam inglês. Após cada passeio, nos esperavam com toalhas e chá (quente, claro!), o que, somado às deliciosas refeições e às paisagens, tornou a experiência inesquecível.

JĪNGZHŌU, a cidade na GARGANTA DE QU TANG, com sua muralha milenar, museu e o Templo do Imperador Branco, é um lugar simbólico, que relembra as histórias de luta do Período dos Três Reinos, no início da era cristã.

SHÉN NÓNG já é outro tipo de passeio, pois se trata de uma reserva natural (Atenção! Apesar do verão, o frio foi suficiente para requerer casacos grossos). O passeio de canoa pelos cânions locais revelou um cenário maravilhoso, com lindos penhascos e cavernas e nos aproximou um pouco mais da realidade da China, com o trabalho árduo dos homens, alguns já em idade avançada, a conduzir as pequenas canoas, que exigiam muita força física.

E, claro, a enorme usina de SĀNXIÁ (TRÊS GARGANTAS) é uma paisagem especial para engenheiros, ambientalistas, economistas e qualquer pessoa disposta a contemplar os projetos monumentais da China, condizentes com as proporções de sua população e sua história. A usina é para a China a garantia de fornecimento de energia para a região do delta do Yangtzé, onde fica a região de Shanghai, e ainda controla as cheias do rio.

XĪ’ĀN (“PAZ QUE VEM DO OESTE”)

A MURALHA DA DINASTIA MÍNG foi o início do passeio pela antiga capital chinesa de Xi’an, atual capital da província de Shǎnxī (Shǎnxī Shěng), dando-nos uma visão geral da cidade.

Pelas manhãs, nos tempos antigos, soava o sino (na Xī’Ān zhōnglóu, ou Bell Tower), avisando a abertura dos portões da muralha; à noite, soavam os tambores (na Xī’Ān gǔlóu, ou Drum Tower), quando do fechamento dos portões.

Passeio imperdível é circular os 13,7 km de bicicleta (alugada mediante depósito); um passeio que leva cerca de uma hora e meia e que deve contar com alguns acessórios indispensáveis no verão: protetor solar, óculos, boné e muita água.

O DÀYÀN TǍ (BIG GOOSE PAGODA) gera, com seus inúmeros degraus, a expectativa de se alcançar o topo da torre e ver a cidade pulsar nas suas ruas repletas de gente.

Os GUERREIROS DE TERRACOTA
do primeiro imperador chinês, Qín Shǐ Huáng ou Qín Shǐ Huáng Dì (literalmente, “Primeiro Imperador [da dinastia] Qín”, que viveu entre 259 a.C. e 210 a.C.) são a atração principal da cidade. Primeiramente, cabe um histórico: este cruel imperador matou de fome os que trabalharam 38 anos construção de sua tumba e enterrou vivos os que sobreviveram, para que não revelassem a localização. Unificou o pensamento nacional com um método radical: enterrando vivos filósofos e estudiosos que apresentassem ideias divergentes das eleitas por ele, bem como queimando os respectivos livros. Cruel, sim, mas o imperador unificou a China, acabando com centenas de anos de guerras entre os reinos. E unificou também a escrita e a moeda.

Foi enterrado com cerca de 8.000 soldados de terracota, acreditando que o protegeriam em sua outra vida. O interessante é que os soldados estão divididos por patentes e armas (artilharia, com os arqueiros, cavalaria e infantaria) e cada um tem feições (e até cabelos) diferentes.

Aconselha-se assistir aos 17 minutos do filme explicativo no teatro que fica na entrada e cuidado para não perder o ingresso, pois ele é exigido em mais de uma seção.

– Cova nº 1 – enorme e lotada de turistas. Local onde se encontra o maior número de guerreiros, junto com cavalos. Ainda há muito para ser escavado e reconstruído (pois, após a morte do imperador, o mausoléu foi incendiado e os guerreiros foram quebrados por camponeses revoltados).

– Covas nº 2 e nº 3 – menores que a 1, sendo que a 3 possui a maior quantidade destas relíquias ainda sob a terra.

Completa o circuito o MUSEU DA HERANÇA CULTURAL.

A TUMBA DO IMPERADOR QIN. Próxima do museu está a reprodução da misteriosa tumba, cujo original não pode ser visitado, pois o imperador providenciou para que o terreno fosse envenenado (ao parece que com mercúrio), para impedir saques. Assim, os arqueólogos utilizaram técnicas que permitissem visualizar o local sem acessá-lo fisicamente.

HUÁQĪNG CHÍ (termas de água quente, no PALÁCIO DE PRIMAVERA DE HUÁQĪNG), construído sobre um vulcão inativo, foi outra atração vista no dia, próxima a Xi’An. Lá, no século VIII, o imperador Xuánzong, da dinastia Táng, viveu um romance com sua amada concubina Yáng Guìfēi. A única ressalva quanto à nossa visita a este belo local foi a falta de tempo para se subir com o teleférico, caso se optasse por visitar todos os ambientes.

EXPOSIÇÃO MUNDIAL DE HORTICULTURA. Novamente sob um sol escaldante (boné, protetor, leque óculos e água!), percorremos uma extensa área e percebemos ser impossível conhecer todos os locais de exposição num só dia. Tivemos a oportunidade de conhecer o urso panda e espécies de pássaros e macacos de regiões da China. Além disso, havia mostras de tecnologias e exposições artísticas de outros países (em sua maioria asiática).

Talvez nem os panda tenham valido o calor intenso, mas os colegas que visitaram o pavilhão de tecnologia parecem ter aproveitado bastante, uma vez que tiveram contato com o interessante trabalho dos engenheiros de genética, que pincelaram com tons de dourado fosco e brilhante e arco-íris as pétalas das rosas (as “golden roses” e “rainbow roses”).

BEIJING (PEQUIM)

É uma cidade que, em função dos dias de terrível escassez da Revolução Cultural, acostumou-se a usar o Chī le ma? (“Você comeu hoje?”) como forma de cumprimento, no lugar do onipresente Nǐ hǎo (“Tudo bem!”).

A visita começou com dois alertas de nosso eficiente guia:

  1. Devido à enorme presença de turistas nas atrações em Beijing (Pequim), haveria uma profusão de vendedores nos assediando nos pontos turísticos. Para evitá-los, a instrução foi de que não respondêssemos em inglês ou mandarim, que cuidássemos bem de nossos pertences e que caso comprássemos algo, procurássemos dar o dinheiro exato, pois muitos vendedores dão troco com notas falsas.
  2. Na Praça da Paz Celestial não se pode fotografar soldados sozinhos, só os que estão em grupo, sob pena de expulsão do local.

A PRAÇA TIAN’ AN MEN (PRAÇA DA PAZ CELESTIAL), vizinha à Cidade Proibida e convenientemente próxima de nosso hotel, foi objeto de nossa primeira visitação. É um local onde milhares de turistas e centenas de vendedores misturam-se a soldados em uniforme cinza, policiais de azul, seguranças e agentes secretos.

A visita emocionou a muitos, pelas lembranças de 1989, ano em que muitos estudantes e civis que reivindicavam democracia foram massacrados pelo exército. O assunto já não é um tabu tão grande, e a Constituição permite que se façam protestos… Mas, como estes só são permitidos mediante autorização…

O TÚMULO DE MÁO ZÉ DŌNG (ou Mao Tse Tung, na grafia antiga), seu enorme retrato em frente à Cidade Proibida, além de pontos turísticos, continuam sendo pontos de reverência entre os chineses, prova de que ainda é forte a presença do comunismo.

O túmulo? Nem pudemos ver, devido à imensa fila. Nenhuma grande perda, ainda mais porque, conforme nos foi explicado, Mao era supersticioso e seria pouco provável que deixasse expor seu corpo. Assim, há a suspeita de que o corpo no mausoléu seja falso, suspeita reforçada pelo fato de que aos visitantes são dados apenas 20 segundos para se observar o corpo desta figura controversa.

Controversa, sim, porque adorada pela geração que presenciou a fundação da “Nova China”, em 1949 (afinal, entre outros, Mao eliminou a escravatura ainda vigente no país), e odiada pelas incontáveis vítimas dos retrocessos e crimes do regime, mormente da Revolução Cultural (vigente entre os anos de 1966 e 1976 – ano da morte de Mao), que chegou a absurdos coletivos como, por exemplo, negar alimento e estudo a milhões de conterrâneos. Se, por um lado, podem-se ver gravuras e bustos com a efígie do “Chairman Mao” em diversos locais e veículos, para os jovens, Mao é apenas um nome. Mas alguns dos que disputam o poder hoje procuram reavivar a imagem do “timoneiro”.

Continuando o passeio pela Praça da Paz Celestial, surgem os muros e as edificações da bela CIDADE PROIBIDA (GÙ GŌNG), região exclusiva dos imperadores das dinastias Míng e Qín, que, proibida aos homens, tornou-se residência apenas de eunucos e mulheres, aí incluídas as concubinas do imperador. Construída com uma arquitetura tradicionalmente chinesa, a Cidade é repleta de detalhes, tais como inúmeros dragões que representavam a proteção ao imperador.

Pontos turísticos como este são de extrema importância para a história da China, porém, devido ao grande número de visitantes no mês de julho, torna-se um pouco difícil apreciá-los da forma que merecem.

Os LAGOS SHÍCHÀHǍI e a região do LOTUS MARKET, que margeiam os lagos, renderam um interessante passeio de riquixá (“pedicab” ou “rickshaw”, em inglês) e uma apresentação
num dos vários bares
do local, na qual artistas mostravam habilidades tais como entortar uma lança pontiaguda com o abdômen; engolir algo parecido com um prego e fazê-lo sair pelo olho esquerdo; engolir nove agulhas e uma linha e depois ir puxando a linha da boca, juntamente com as agulhas; engolir duas espadas. Mas a apresentação evocou a muitos algo bizarro, protagonizado por pobres artistas de circo em fim de carreira, e divertiu mais pela participação do nosso próprio grupo.

Ainda no Lotus Market, provamos espetos com escorpião, gafanhoto, pupas de bicho-da-seda e stinking tofu, tudo sempre banhado em óleo. É, algo que, segundo explicaram os voluntários, apenas os estrangeiros fazem. Tolos? Talvez, mas quando estaríamos de volta à China para matar nossa curiosidade?

Uma pausa num dos HÚ TÒNG (“beco”) fez parte do passeio de riquixá, permitindo conhecer uma forma tradicional de moradia utilizada há milênios pelos chineses e que congrega diversas gerações em um mesmo espaço, em que os cômodos compartilham um pátio central. A disposição dos cômodos e até mesmo o plantio de flores e árvores no pátio de um hú tòng obedecem às orientações do Fēng Shuǐ. Os cômodos são dispostos nos quatro pontos cardeais, com o pátio no centro. No passado, os cômodos eram ocupados de acordo com a hierarquia e o sexo dos membros da família: os cômodos ao norte eram ocupados pelos mais velhos, os do leste pelos homens, os do oeste pelas mulheres e os do sul pelos serviçais.

Apenas em Pequim é possível encontrar um verdadeiro hú tòng, nome que originalmente significava “casa com poço” e foi dado pelos mongóis, que construíam suas casas em locais com água. É importante mencionar que estes bairros com os hú tòngs são cada vez mais raros em Pequim, pois têm sido demolidos para a construção de avenidas e prédios mais modernos. Muitos foram designados como áreas protegidas, para assim poder preservar este aspecto histórico da cidade de Pequim.

A RUA WÁNGFǓJǏNG (“poço da mansão do príncipe”), principal calçadão de Beijing, com lojas de grife, foi nosso passeio da tarde.

Mais compras seguiram-se no CLOTHING SHOP, com cópias de roupas de marca; foi algo que agradou a alguns e desagradou a outros, que partiram em busca de programas alternativos.

A GRANDE MURALHA (CHÁNG CHÉNG, que deveria ser traduzido como “longa muralha”), talvez tenha sido o auge da visita a Beijing. A Muralha evoca momentos de sofrimento, porque custou milhares de vidas para ser construída. Pôde-se ter uma vaga ideia do sacrifício cruel a que eram submetidos os que participaram de sua construção ao subir seus degraus para se chegar ao alto, na Torre do Farol nº 13. Os degraus têm tamanhos variáveis, diversos deles estão gastos e escorregam, há estreitamentos de passagem em diversas torres; às vezes, sobe-se quase rastejando. E descer também é uma aventura desgastante para os joelhos. Dá para entender porque Mao dizia que “quem não subiu a Muralha não é um herói”. E também porque, apesar de certo exagero no adjetivo, os pequineses dizem que quem faz o percurso duas vezes é estúpido…

O percurso até a torre 13 foi escolhido para se adequar ao tempo disponível (1,5 h), mas o tempo acabou por ser excedido, ainda mais se considerarmos que o fluxo de turistas nas partes mais baixas era muito intenso e havia trechos tão estreitos que permitiam passagem apenas num sentido. E, mesmo o dia estando um pouco nublado, foi necessário o uso de protetor solar, boné e óculos de sol (e até uma camiseta extra seria benvinda), além de consumida muita, mas muita água (mesmo havendo pontos de venda nas torres, pode-se sofrer muito até se chegar a elas).

Ao comprar camisetas na Muralha, a dica do guia (que deve valer para diversos outros pontos turísticos): compre uma camiseta maior que seu tamanho, porque elas costumam ser do tipo “três gerações”. Após cada lavagem, encolhem e vão servindo aos filhos, depois aos netos, mas não mais a quem comprou… Peças anunciadas por um preço podem ficar mais caras quando se chega às lojas e peças anunciadas como 100% seda às vezes tem seda apenas na etiqueta.

Após a descida, o almoço e, como todos os almoços e jantares em Beijing, mais uma passagem obrigatória por uma loja na entrada do restaurante destinado ao almoço. Desta vez, um agradável restaurante sobre uma luxuosa oficina de fabricação de artigos de jade.

À tarde, visita ao HANBAN, o Escritório Nacional Chinês para Ensino do Chinês como Língua Estrangeira, entidade afiliada ao Ministério da Educação da RPC, responsável pelas unidades do Instituto Confúcio ao redor do mundo. Em meio a estudantes das mais diversas nações, conhecemos as modernas instalações do China Exploratorium, onde um pincel eletrônico nos permitia experimentar traçar os caracteres chineses. Visitamos também a livraria vitrine e conhecemos vestimentas tradicionais e instrumentos musicais chineses.

Encerrada a visita, mais uma vez fomos às compras em shopping centers a curta distância do local.

À noite, aquele que talvez tenha sido o melhor programa noturno da viagem, o show de variedades na CASA DE CHÁ LǍOSHĚ (LǍOSHĚ CHÁGUǍN), uma das casas de chá mais famosas da China. O local é muito bonito e bem decorado, com vários andares, incluindo várias lojas que vendiam suvenires, chás e outros itens. Enquanto bebíamos chá e provávamos petiscos típicos, assistimos a uma hora e meia de apresentações diversas, que se superavam em qualidade: um grupo tocou vários instrumentos típicos chineses, incluindo o Xihe Drum (xihé dàgǔ); dançarinas nos mesmerizaram com seu talento e assistimos a uma cena de “A Jade Bracelet”, da famosa ópera de Pequim.

Presenciamos também as acrobacias com o “Long Beak Teapot” (onde chás eram servidos a partir de chaleiras dispostas nas pontas de longas hastes) e a um show de equilíbrio de vasos de porcelana (que eram incrivelmente arremessados, girados no ar e recuperados sem falha alguma). Tivemos o prazer de assistir à mímica oral dos fantásticos irmãos Fang Sheng e Fang Xiang, que reproduzem todo e qualquer tipo de som, E ao show da troca de máscaras de Zhang Qi, da Sichuan Opera (Chuānjù), uma atriz que, em meio aos incrédulos espectadores, num piscar de olhos trocava suas máscaras.

Para encerrar a noite, uma maravilhosa apresentação de kung fu (wǔshù ou gōngfu) acrobático e com leque (que requer muita disciplina, agilidade e equilíbrio dos participantes). Ao final, encontramos companheiros de língua portuguesa nos membros de uma comissão parlamentar da área de educação e cultura do Parlamento Nacional de Timor-Leste. Uma noite inesquecível!

No dia seguinte, tivemos a oportunidade de visitar por fora os estádios mais importantes de Beijing, NINHO DE PÁSSARO (NIǍOCHÁO) e o CUBO D’ÁGUA (SHUǏ LÌFĀNG), onde ocorreram os Jogos Olímpicos de 2008. Ambos feitos de estruturas metálicas interligadas, de modo a nos dar a impressão do formato que os nomes sugerem. São construções extremamente modernas, feitas para acolher um grande número de pessoas, sendo um bom local para passear, tirar boas fotos, empinar pipas etc.

O PALÁCIO DE VERÃO (YÍHÉ YUÁN)
em Beijing, construído para ser um local paradisíaco para os imperadores, com lago artificial, montanha, árvores e construções portentosas, foi onde ouvimos a respeito da Imperatriz Viúva Cíxī (Cíxī Tàihòu), apelidada de “Dragon Lady”, que, uma vez viúva, sucedeu seu marido e não hesitava em matar filhos e sobrinhos que se pusessem em seu caminho e que, com suas extravagâncias, dilapidou o patrimônio da nação chinesa, perdendo inclusive territórios para potências ocidentais; mas… foi ela quem recuperou o palácio, tornando-o o que é atualmente, uma fonte de renda provinda do turismo.

Caminhamos às margens do longo corredor repleto de pinturas clássicas chinesas, passeamos de barco pelo lago, apreciamos muitas flores de lótus na beira do lago, enfim, um local para um maravilhoso entretenimento acessível a todos.

O TEMPLO DO CÉU
(TIĀNTÁN), construído em 1420 d.C., na Dinastia Míng (Míng Cháo), foi nossa última atração em Beijing, já a caminho do aeroporto. Uma pena que o dia quente e abafado e o excesso de turistas não tenha permitido aproveitar em toda a plenitude a magnífica vista e as construções dos vastos jardins.

Mas, infelizmente, houve uma nota desagradável quanto a Pequim, onde ficou relativamente comum o “Golpe do Chá“, que vitimou um casal de nosso grupo. Jovens moças abordam os estrangeiros, convidam-nos para uma conversa, sob pretexto de serem estudantes querendo aperfeiçoar seu inglês. Depois, segue-se o convite para um chá – e não é um convite do tipo qĭng kè chinês (“eu convido e pago”), mas uma armadilha que leva a uma conta de centenas de iuanes. Na recusa dos “convidados” em pagar, vem o protesto da “estudante” para que, pelo menos, se divida a conta. O casal de nosso grupo que chegou a este estágio acabou por deixar poucas dezenas de iuanes e livrou-se de maiores complicações. Menos mal… Depois de comentado o caso, mais pessoas do grupo relataram ter sido igualmente abordadas ou alertadas por amigos no Brasil a este respeito.

EPÍLOGO

Pois toda história, por melhor que seja, tem um fim.

“Um país tão extenso

Uma história tão longa

Uma população tão grande

Uma língua tão difícil”

Foi o que nos colocou com o humor que lhe é típico, o Professor Li Xiangkun, no discurso de abertura do Curso de Verão 2011.

E certamente poderíamos acrescentar: “Um povo tão caloroso e gentil”. Como wài guó rén (forasteiros), fomos uma espécie de atração benvinda para os nativos, principalmente em Wuhan, onde wài guó rén são mais raros. Ficou-nos claro que os nativos adoravam ter os estrangeiros em meio a si e aprender sobre eles. Nos caminhos que passamos percebemos muita cordialidade, ausência de violência e um povo muito trabalhador.

Este curso foi a oportunidade de uma vida e nos abriu uma vida de oportunidades. O tempo disponível não nos permitiu conhecer as pessoas externas ao círculo universitário de Wuhan e nos envolver com pessoas de outras profissões e atividades, como funcionários das fábricas, do comércio, de serviços em geral e da área rural. Mas não se pode tirar mérito algum do fato de que foi muito bom o que conhecemos e o tempo que vivemos na China.

Ainda restou muito a conhecer e aprender. Devemos voltar à China e continuar a tomar contato com sua história e seu povo, seus gostos e paixões, suas tristezas e suas alegrias, seus projetos e seu modo de vida.

Bújiànbúsàn! “Não podemos nos separar até nos vermos” ou “Espero por você até que você chegue”.

Nossos agradecimentos ao Hanban, ao Instituto Confúcio na UNESP, à Universidade de Hubei e às suas equipes; e também aos monitores voluntários, pessoas maravilhosas que estiveram ao nosso lado durante este tempo e que permitiram que nossa família ficasse maior ainda.

Meus agradecimentos aos colegas do Summer Course que contribuíram para este texto com suas observações e que, com sua presença, tornaram este viagem inesquecível.

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Sobre Roberto Blatt

Sou formado em Engenharia Eletrônica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP), tenho M.S. in Computer Systems and Information Technology pela Washington International University e MBA em Administração de Empresas pela FGV. Tenho mais de 25 anos de experiência profissional na área Administrativa Financeira, desenvolvidos em empresas nacionais e multinacionais dos segmentos automotivo, eletroeletrônico e serviços, vivenciando inclusive o start-up, dentro dos aspectos administrativos e financeiros e tendo atuado na gestão de equipes das áreas Administrativa, RH e Pessoal, TI, Financeira, Comunicação e Compras. Professor no Pós-Admn da FGV em Liderança & Inovação e Gestão de Pessoas. Para acessar meu blog com comentários e críticas sobre cinema, cliquem aqui ou, para artigos sobre Administração, Tecnologi a eresenhas de livros, em aqui .
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