Nação Empreendedora: O milagre econômico de Israel e o que ele nos ensina (Start-Up Nation: The Story of Israel’s Economic Miracle)

Nação Empreendedora: O milagre econômico de Israel e o que ele nos ensina (Start-Up Nation: The Story of Israel’s Economic Miracle), livro de Dan Senor e Saul Singer, 2009 (edição de 2011). C

É emblemática a colocação do empresário israelense Shai Agassi, que deixou um alto cargo na alemã SAP para liderar a iniciativa da Better Place, a quinta maior start-up da história, atuando no setor de carros elétricos em parceria com a Nissan-Renault, do brasileiro Carlos Ghosn: “Ao isolar Israel, seus adversários tinham realmente criado o laboratório perfeito para testar ideias.” Parte do sucesso tecnológico de Israel, uma pequena nação, com pouco mais de sete milhões de habitantes, cercada de inimigos por praticamente todos os lados e em permanente estado de guerra, boicotada pelas nações árabes (e pelos parceiros que cedem às exigências delas), deve-se ao pragmatismo: fica mais fácil para Israel exportar pequenos componentes e software, elementos mais difíceis de serem boicotados. Mas esta é somente uma das razões, que não explica por si só por que o país tem mais companhias listadas na bolsa de tecnologia NASDAQ do que possuem Europa, China, Índia e diversos países somados; ou por que Google, Cisco, Microsoft, Intel, eBay e outras grandes multinacionais tanto dependem de suas filiais israelenses. Ou, ainda, o fato de Warren Buffett ter adquirido sua primeira companhia fora dos EUA justamente em Israel.

Já no prefácio, o ex-primeiro-ministro e atual presidente de Israel, Shimon Peres (um dos pais do empreendedorismo tecnológico israelense), aponta um caminho, explicando que os kibutzim (comunidades coletivas de caráter inicialmente agrícola) tornaram-se incubadoras e os seus fazendeiros, cientistas, determinando que a alta tecnologia em Israel fosse iniciada com a agricultura. Afinal, era desta tecnologia que precisava um país com pouca terra e menos água ainda (daí a invenção da irrigação por gotejamento). Da agroindústria chega-se à necessidade de se formar a própria indústria aeronáutica, em função dos boicotes (até de “fiéis” aliados de Israel, como a França do general de Gaulle, que mostrou a face negativa da realpolitik).

 

Se não há identidade genética ou cultural entre os habitantes, que têm diversas origens nacionais, também não se pode apelar para a figura de uma genética judaica para explicar o sucesso. Então, como detetives, através de entrevistas com empreendedores gerados no país e de empresários que lidam com Israel, os autores buscam as razões para a existência de um “ecossistema que gera ideias radicalmente novas de negócios”. Seria o improviso a que têm que recorrer jovens e inexperientes comandantes militares em situações inesperadas no campo? Ou o fato de, sem quebrar a estabilidade, as instituições serem “desierarquizadas”, havendo o permanente questionamento da autoridade (algo que é mostrado em clima de empolgante suspense no capítulo 2, que aborda a ruptura da hierarquia nas forças armadas)?

Aliás, Israel possui sim algo único, o permanente estado de guerra e o estabelecimento de uma força de reservistas única no mundo, que gera laços de equipe que vão para além dos anos de serviço militar. E é também um país onde existe uma insatisfação permanente com o status quo (o que levou, por exemplo, à invenção do processador dual-core e ao do fim do paradigma de se medir desempenho de CPUs de computadores pela sua velocidade) – e onde seminários acalorados onde se discutem fracassos e acertos das missões são frequentes. Há uma atitude singular em relação aos “fracassos construtivos” ou “fracassos inteligentes”; se, por um lado, não se admitem justificativas para mau desempenho, e nem se adulam os bons desempenhos, tampouco se diminui alguém permanentemente por um mau desempenho.

Risco, audácia, empenho, criatividade multidisciplinar, o aporte de judeus vindos do Holocausto e sem nada a perder, a maior concentração de engenheiros e de gastos com pesquisa e desenvolvimento do mundo (muito graças aos muitos milhares de cérebros bem preparados dos judeus provenientes da URSS e de seus satélites)… São diversas as razões que fazem com que Israel seja respeitado no campo das inovações. A chutzpah, vocábulo que vem do iídiche e que pode ser aproximadamente traduzido como descaramento ou uma combinação de presunção com arrogância (mas que para o israelense é o modo normal de ser), e que alguns poderiam definir como “assertividade”, é uma característica do povo israelense e talvez o maior combustível que o tenha levado a alcançar alto grau de desenvolvimento, apesar (ou justamente por causa de?) guerras, atentados terroristas e do estado de tensão permanente. Um país no qual as bolsas e os investimentos chegam a funcionar normalmente, por vezes até com mais sucesso, em meio a guerras.

Os autores não se detêm sobre o sucesso em Israel e, baseados na Teoria dos Conglomerados de Michael Porter, examinam por que nações organizadas e modernas, como Singapura, ou financeiramente poderosas, como Dubai, não alcançam este alto grau de empreendedorismo.

E, finalmente, citam os setores considerados por Shimon Peres como as indústrias do futuro, as ameaças ao avanço econômico de Israel – como o excesso de dependência no setor tecnológico e o fator haredim (ultraortodoxos, resistentes às mudanças da sociedade) – e terminam o livro numa bela homenagem ao pai de Dan e ao irmão de Saul.

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Sobre Roberto Blatt

Sou formado em Engenharia Eletrônica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP), tenho M.S. in Computer Systems and Information Technology pela Washington International University e MBA em Administração de Empresas pela FGV. Tenho mais de 25 anos de experiência profissional na área Administrativa Financeira, desenvolvidos em empresas nacionais e multinacionais dos segmentos automotivo, eletroeletrônico e serviços, vivenciando inclusive o start-up, dentro dos aspectos administrativos e financeiros e tendo atuado na gestão de equipes das áreas Administrativa, RH e Pessoal, TI, Financeira, Comunicação e Compras. Professor no Pós-Admn da FGV em Liderança & Inovação e Gestão de Pessoas. Para acessar meu blog com comentários e críticas sobre cinema, cliquem aqui ou, para artigos sobre Administração, Tecnologi a eresenhas de livros, em aqui .
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