Bode Expiatório — Uma História da Prática de Culpar Outras Pessoas (Scapegoat – A History of Blaming Other People)

Bode Expiatório — Uma História da Prática de Culpar Outras Pessoas (Scapegoat – A History of Blaming Other People), livro sobre a história do hábito de se culpar os outros, de Charlie Campbell, 2011. C

“No início, Adão culpou Eva”… é a bem sacada frase de capa do livro inglês Charlie Campbell, que mostra a história da Humanidade no que tange a uma de suas características mais primitivas – a de querer culpar sempre o outro. O livro já começa explorando bem o tema, ao mencionar o lema da família dos condes de Gresham: “Quem podemos culpar?”. E prossegue explicando a origem do termo “bode expiatório” e depois dedicando um capítulo a cada evento histórico em que aparece a figura do “expiador”, normalmente um ser humano que ocupa este papel – involuntariamente, na maioria das vezes.

Bode expiatório e herói são comparáveis, ironicamente, pois ambos se entregam para a maioria. O bode seria uma versão a contragosto do herói? Ambos proporcionam risco e sacrifício sem vantagens pessoais imediatas e para benefício dos que o cercam. Mas… reis podem vir a ser bodes expiatórios, e não o contrário… Apesar de que por vezes o bode ser considerado como dotado de muitos poderes (talvez maiores que os de um rei), capazes de provocar catástrofes.

No início da civilização, animais eram utilizados para “absorver” os pecados humanos perante os deuses (ou Deus), normalmente sendo “expulsos” do local, poupando a Humanidade da expiação. Depois, eles perderam lugar para os próprios humanos. Mas nem sempre, já que houve casos onde os animais não foram mero instrumento de absorção destes pecados, mas sim acusados por causá-los, e o autor cita o exemplo de um infeliz porco levado a julgamento por pretensos pecados e ainda vestido como um ser humano – ó, estupidez absoluta! Ou ainda casos de insetos causadores de praga julgados por causar destruição em lavouras e sentenciados (alguém se habilita a apostar que tenham cumprido pena?).

O bode expiatório tinha razão de ser… afinal, como explicar as coisas ruins que aconteciam às pessoas e povos se não através da ideia do castigo divino, que precisa ser expiado? E o ser humano, rico em motivos escusos, usou a figura do bode expiatório como desculpa para se apropriar dos bens daqueles que formavam minorias facilmente exploráveis para livrar-se de desafetos.

E vamos aprendendo que a obsessão pela pureza e a crença no pecado original contribuíram para o fortalecimento da pobre figura do bode expiatório. Assim é que a Igreja Católica, que passou de perseguida a perseguidora, acabou herdando maus hábitos dos que a perseguiam, encontrando bons bodes expiatórios (ou cabras, já que na Idade Média a caça às bruxas privilegiou as mulheres).

Quanto às bruxas, esta figura mítica perseguida desde cedo pela Igreja, o autor explica que muitas das pessoas apontadas como tal eram viúvas ou idosas solteiras, deficientes mentais, gente colocada à margem da sociedade e cuja vida não tinha valor suficiente para seus semelhantes (e, por vezes, nem para si mesma). Nesta linha, um dos exemplos mais marcantes do livro é aquele em que uma senhora foi acusada de bruxaria e o pároco local “ousou” dizer que, se ela fosse uma bruxa, então ele também haveria de ser. A consequência desta defesa pelo absurdo foi óbvia…

E os judeus, que não podem ser esquecidos? Ah, como eles sofriam menos com a peste negra, deveriam ser seus causadores da mesma. Mas ninguém refletiu o suficiente (e deveria fugir aos conhecimentos da época) para perceber que seus hábitos higiênicos seriam melhores que os do restante da população.

A Inquisição, aliás, foi pródiga em criar recursos para obter confissões. Um dos “inteligentes” testes para se averiguar se se tratava de feiticeiro ou não era o do afogamento. Jogado no rio amarrado a pedras, o suspeito que afundasse (e morresse…) era inocente. O que flutuasse seria culpado (e morreria a seguir na fogueira…). E o peso das acusações e torturas era tanto que por vezes os acusados passavam a acreditar nas acusações feitas contra si de possuir poderes malignos e até tentavam usá-los para sobreviver, o que, ironicamente, aumentava a carga da acusação.

Estranhamente (ou convenientemente?) tanta estupidez gozou de chancela oficial da Igreja, que acabou avalizando o livro escrito por dois inquisidores alemães, Hein­rich Krae­mer e James Sprenger, em 1487, “O Martelo das Bruxas” ou “O Martelo das Feiticeiras” (título original em latim: “Malleus Maleficarum”), que foi o guia de diagnóstico para bruxas por séculos.

Aliás, a este respeito, outro dia vi num documentário uma explicação de que Kraemer o teria escrito como vingança contra uma moça que não cedera a seus “charmes”. Os autores teriam colocado uma falsa nota de apoio da Universidade de Colônia, e assim foi que muitos inquisidores fizeram fortuna cobrando à base de bruxos encontrados e confessos.

Mas não pode se julgar as sociedades do passado pelos valores do presente. Afinal, não eram esses tempos mais primitivos? Não nos livramos da estupidez da figura do bode expiatório nos tempos modernos? Não! Todo desastre tem que ter seu bode… Assim é que subsistem “teorias da conspiração”, contra os rosa-cruzes, que pretensamente estariam em todos os cantos do mundo, e contra os judeus e outras minorias (afinal, são muito recentes o vergonhoso caso Dreyfus e Holocausto sob Hitler).

Uma leitura agradável, com elegantes ironias (por exemplo, algum líder alguma vez já clamou que um desastre fosse culpa de seus próprios pecados?), apesar de o tom geralmente engraçado em muitos momentos tornar-se triste, ao revelar os males causados pela tendência de culpar outrem. A divisão em capítulos dedicados cada um a momentos diferentes da história facilita a leitura sem a perda do fio da meada. Devorei o livro rapidamente…

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Sobre Roberto Blatt

Sou formado em Engenharia Eletrônica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP), tenho M.S. in Computer Systems and Information Technology pela Washington International University e MBA em Administração de Empresas pela FGV. Tenho mais de 25 anos de experiência profissional na área Administrativa Financeira, desenvolvidos em empresas nacionais e multinacionais dos segmentos automotivo, eletroeletrônico e serviços, vivenciando inclusive o start-up, dentro dos aspectos administrativos e financeiros e tendo atuado na gestão de equipes das áreas Administrativa, RH e Pessoal, TI, Financeira, Comunicação e Compras. Professor no Pós-Admn da FGV em Liderança & Inovação e Gestão de Pessoas. Para acessar meu blog com comentários e críticas sobre cinema, cliquem aqui ou, para artigos sobre Administração, Tecnologi a eresenhas de livros, em aqui .
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