Blink – The Power of Thinking without Thinking

Blink – The Power of Thinking without Thinking,de Malcolm Gladwell sobre como funcionam o pensamento e a intuição (2005).

O autor abre o livro com o intrigante caso da estátua grega, um kouros, comprada pelo Museu J. Paul Getty em 1983. Uma poderosa aquisição, chancelada por especialistas de diversas áreas. Até que a estátua cai na vista de um dos curadores do museu que, com uma “batida de olho”, emite um julgamento oposto ao dos especialistas. Em seguida, um perito de arte e uma estranha “intuição repulsiva” lhe percorrendo a mente ao ver a estátua. E assim o autor compara as duas estratégias de avaliação utilizadas pelo nosso cérebro: a consciente (mais “técnica”) e a inconsciente, que nos permite a tomada rápida de decisões baseados em poucas informações, sem que necessariamente saibamos explicar por que as tomamos.

A PROPOSTA: O livro se propõe a mostrar que ambos os tipos de decisões podem ser igualmente valiosos. E também a responder ao leitor quando confiar ou não nos instintos. A terceira tarefa a que Gladwell se propõe, e a que considera a mais importante, é convencer o leitor de que julgamentos “apressados” (snap jugdments) e primeiras impressões podem ser educados e controlados.

O “THIN-SLICING”: É a habilidade de nosso inconsciente de achar padrões em situações e comportamentos apenas se baseando em pequenas porções (“slices”) de experiência: assim, exemplifica o autor, é que analistas que perscrutavam a vida conjugal de casais diversos descobriam em apenas três minutos de diálogos entre eles se eles se manteriam ou não casados, pontuando quatro características essenciais, presentes ou não na conversa: atitude defensiva, obstrução, crítica e desdém (com destaque para a última). Essa percepção é a mesma que permitia a peritos do código Morse detectar o “punho”, o padrão peculiar com que cada operador tecla (o que, aliás, ajudou imensamente os aliados na Segunda Guerra, como mostra o filme “O Jogo da Imitação”).

JULGAMENTOS RÁPIDOS – O GOLPE DE VISTA: É a capacidade que permite a uma pessoa conhecer mais sobre outra examinando seu quarto do que através de uma conversa (que pode falsear a percepção). É a habilidade essencial que tinham os generais Napoleão e Patton; é também o que levou o produtor Brian Grazer a acreditar no futuro de um jovem ator de nome Tom Hanks e é o que permite a peritos determinar os médicos mais propensos a ser acionados na justiça (essencialmente, médicos cuja consulta não causa boa impressão são mais propensos do que os que cometem erros médicos!).

JULGAMENTOS CORRETOS? Esses julgamentos são feitos pelo cérebro a “portas cerradas” e dificilmente conseguimos definir os critérios usados. Assim, treinadores “adivinham” quando um esportista vai fazer a jogada certeira ou esportistas veem a bola chegando e nem pestanejam para atingi-la corretamente, mas não conseguem explicar por que acertam. Por outro lado, podemos ser enganados por estas primeiras impressões, como provou a eleição de um dos mais medíocres presidentes americanos, o vistoso e elegante Warren G. Harding.
Essas primeiras impressões são geradas pelas nossas experiências, mas sofrem influência do ambiente em que vivemos, e é por isto que o IAT (Implicit Association Test), que testa situações espontâneas, pode gerar respostas carregadas de preconceito inconsciente, gerado pelo ambiente do(a) respondente, mesmo que conscientemente ele(a) combata preconceitos.

A TOMADA DE DECISÕES deve, então, ser guiada basicamente por dois aspectos:

  1. Balancear os pensamentos instintivos e os deliberados e saber quando brecar os primeiros.
  2. Restringir-se aos elementos mais simples, evitando a sobrecarga de informações irrelevantes.

A PRIMEIRA IMPRESSÃO E O CONSUMIDOR: Você pode fazer uma primeira impressão valer muito na questão do consumo e quem melhor soube interpretar os anseios do consumidor foi Louis Cheskin. Por causa de seus estudos é que a margarina tem a cor da manteiga e as embalagens são parte essencial dos produtos. Por outro lado… primeiras impressões mal administradas podem conduzir a resultados falhos, como bem demonstra o clássico Desafio Pepsi: quando a Pepsi mudou de sabor por causa de pesquisas, a Coca foi atrás e falhou, tendo que retornar à Coca clássica. Por quê? Porque testar um gole não é como beber a lata ou garrafa toda. Foi por fugir da dependência das primeiras impressões que surgiram sucessos como a cadeira Aeron e seriados de TV como Mary Tyler Moore. Aderir a elas sem a correta interpretação, por outro lado, gerou o caso do emblemático cantor Kenna, adorado pelo público e rejeitado pelas rádios.
E é para evitar esta interpretação incorreta que a primeira impressão pode causar que testes de audição de instrumentistas, que são feitos por thin-slicing, ocorrem às cegas (Gladwell dedica um capítulo à absurda batalha que teve que travar a trombonista Abbie Conant, da Filarmônica de Munique após um bem-sucedido teste desses).

LENDO ROSTOS E MENTES – NOSSOS VERDADEIROS SENTIMENTOS: A meu, ver o caso mais dramático do livro – e que provocou profundas mudanças na abordagem policial americana –, foi o do imigrante Amadou Diallo, uma sequência trágica de interpretações errôneas de sinais corporais e faciais… expressões estas que foram objeto de estudo de Silvan Tomkins, talvez o maior “leitor de mentes” do mundo, e de seu discípulo Paul Ekman, que, em parceria com Wallace Friesen, criou uma extensa taxonomia das expressões faciais humanas… e descobriu que, das milhares existentes, a maioria nem tem significado, mas que delas sempre se podem extrair as microexpressões involuntárias com que a evolução nos dotou para sinalizar nossos verdadeiros sentimentos.

AUTISMO TEMPORÁRIO? No autismo, modelo clássico da inabilidade de focar um rosto e dele captar sentimentos, uma face é apenas um objeto; o autista usa a mesma região do cérebro que reconhece objetos (aquela que pode nos deixar na mão na hora de reconhecer nossa bagagem na esteira) para reconhecer faces (a que nos permite reconhecer um colega de dezenas de anos atrás). Gladwell pergunta-se se o autismo não seria também uma condição temporária nas pessoas normais submetidas a estresse violento, levando-as a interpretações errôneas; seria como se o mecanismo de interpretação de sinais fosse desligado nestes momentos, da mesma forma que a evolução determinou que o controle dos músculos responsáveis pela evacuação não é essencial sob estresse violento.
Para evitar esse “autismo temporário” e suas falsas interpretações é que são proibidas as perseguições em alta velocidade na polícia americana e que se deixa apenas um policial nos veículos de patrulha: a espera pelo reforço pode ser um bom freio contra decisões instintivas perigosas.

OS ENSINAMENTOS: Gladwell dedica um capítulo à análise da clássica batalha de Chancellorsville, na Guerra Civil americana, de onde surgem algumas lições:

  1. O dom de agir por instinto e corretamente vem da experiência;
  2. Entender a verdadeira natureza da decisão instintiva requer saber perdoar os que erram sob circunstâncias onde o bom julgamento está em risco;
  3. Num mundo saturado de informação, acabamos por confundir “informação” com “entendimento” (Pearl Harbor e Chancellorsville são exemplos de como o excesso de informação pode prejudicar, bem como os casos dos atendimentos de suspeita de infarto agudo do miocárdio, que levaram os médicos a escolher um grupo de sintomas essenciais, descartando os demais sinais, que só tendiam a confundir.)

Surpreendentemente, conclui o autor, em decisões diretas, a deliberação consciente talvez seja a melhor. Já em questões onde a análise e escolha pessoal começam a ficar complicadas e temos que lidar com diversas variáveis, nossos processos inconscientes (julgamentos instintivos) talvez sejam melhores (já preconizava Freud…).

Enfim, uma leitura muito interessante, com trechos que nos situam num suspense policial em câmera lenta (como no caso de Amadou Diallo), ou num suspense de tribunal (como no caso do kouros) ou de guerra (o capítulo dedicado a Paul Van Riper e o Desafio do Milênio, que precedeu a invasão do Iraque). Algumas poucas partes mais monótonas, mas, no geral, vai-se lendo pelo impulso de saber que descoberta virá logo a seguir.

 

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Sobre Roberto Blatt

Sou formado em Engenharia Eletrônica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP), tenho M.S. in Computer Systems and Information Technology pela Washington International University e MBA em Administração de Empresas pela FGV. Tenho mais de 25 anos de experiência profissional na área Administrativa Financeira, desenvolvidos em empresas nacionais e multinacionais dos segmentos automotivo, eletroeletrônico e serviços, vivenciando inclusive o start-up, dentro dos aspectos administrativos e financeiros e tendo atuado na gestão de equipes das áreas Administrativa, RH e Pessoal, TI, Financeira, Comunicação e Compras. Professor no Pós-Admn da FGV em Liderança & Inovação e Gestão de Pessoas. Para acessar meu blog com comentários e críticas sobre cinema, cliquem aqui ou, para artigos sobre Administração, Tecnologi a eresenhas de livros, em aqui .
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